Falar sobre Mr. King é como pisar em um terreno arenoso: você pode ter um certo apoio ou simplesmente afundar por completo. Por isso decidi ficar em cima do muro. Não acredito, como escrito no artigo da Wikipédia em português, que ele “seja um dos mais notáveis escritores de contos de horror fantástico e ficção de sua geração”, mas também não consigo enxergá-lo, como a maioria dos acadêmicos, como “um cara que quer apenas fazer dinheiro fácil”

Não, não sou covarde. Acho que em face ao seu grande número de publicações, seja em seu nome ou sob pseudônimos, os três livros que li, sendo apenas dois deles de ficção, ainda não me dão bagagem suficiente para entender se falamos de forma ou fórmula.

Dito isso, vamos ao livro que fez onze em cada espectadores chorarem com a adaptação cinematográfica: À Espera de um Milagre.

O bloco E do presídio estadual, localizado em Could Montain, é destinado aos internos que foram sentenciados com a morte, como nos conta, numa narrativa em primeira pessoa, o agora idoso e antigo chefe do corredor da morte Paul Edgecomb. Quando somos transportados ao período da Grande Depressão Americana, percebemos que não apenas os internos, seus subordinados e a Velha Fagulha — forma como chamavam a cadeira elétrica — preocupavam Edgecomb: além da saúde da esposa de seu superior e amigo Hall, uma violenta infecção urinária fazia com que seus dias não fossem muito mais fáceis, isso e a chegada do novo detento, John Coffey. E é aqui que a começa a história, em 1932.

John Coffey foi condenado à morte por ter estuprado e matado duas irmãs de nove anos. As meninas sumiram da varanda, onde convenceram a mãe em deixá-las dormir, e foram encontradas, nuas e sem vida, nos braços de Coffey, que apenas disse, entre gritos e lágrimas: “tentei retirar, mas já era tarde demais”.

John Coffey foi executado. O problema é que ele não cometeu os crimes.

A inocência

Toda a história de Paul não serve apenas para que ele relembre do caso. A impressão que temos é que sua extensa narrativa é quase uma carta de confissão: ele e seus amigos mataram Coffey, mesmo sabendo de sua inocência e de quão especial ele era. Brutus, um dos subordinados de Paul, chega a externar sua impotência para o chefe:

– Fiz algumas coisas na vida das quais não me orgulho, porém essa é a primeira vez que realmente me senti correndo perigo de ir para o inferno.

Olhei para ele para ter certeza de que não estava brincando. Achei que não estava.

– O que você quer dizer?

– Quero dizer que estamos providenciando a morte de uma dádiva de Deus — disse ele. — Alguém que nunca causou mal algum a nós nem a nenhuma outra pessoa. O que direi se acabar de pé diante de Deus, o Pai Todo-poderoso, e Ele me pedir que explique por que fiz isso? Que era meu trabalho? Meu trabalho?“Que era meu trabalho? Meu trabalho?”. Já ouvimos isso antes, n’est-ce pas (lembrando Del), muitas vezes: os nazistas, os soldados no Oriente Médio, a polícia…

O preconceito

Em 1945, a grande jazzista Nina Simone, então com 12 anos, foi apresentar-se em um recital e viu seus pais impedidos de sentarem na primeira fila, sendo levados para os fundos do salão. Por quê? Eram negros.

Em 1932 a coisa não era diferente e em vários trechos vemos esse preconceito refletido nas personagens, quando, por exemplo, essas comparam John Coffey com animais, a forma como a palavra “negro” sempre vem carregada de adjetivos pejorativos, mas, possivelmente, o trecho que faz com que esse preconceito fique mais aparente é relacionado a uma fala da esposa de Edgecomb, Jan, quando percebe que não conseguirão fazer nada para convencer aos outros de que John Coffey é inocente:

– Vocês pretendem matá-lo, seus covardes? — perguntou. — Vocês pretendem matar o homem que salvou a vida de Melinda Moores, que tentou salvar as vidas daquelas menininhas? Bem, pelo menos vai haver um negro a menos no mundo, não é? Vocês podem ter esse consolo. Um negro a menos.

A pena de morte

Por mais que saibamos que ninguém ali no corredor verde é inocente — ninguém exceto JC — King faz com que nos simpatizemos com as tragédias que esses homens se auto-impuseram. Ele humaniza os detentos e quando não o faz — caso de ‘Wild Bill’ Wharton, que era mesmo o mal encarnado — ele aproxima-os de homens maus, mas que estão “acima de qualquer suspeita” como Percy Wetmore. Acredito que esse tenha sido um subterfúgio para criticar a pena de morte, não apenas por matar um inocente, mas por não resolver o problema de fato, como escrito em trecho da primeira parte:

(…) a Velha Fagulha nunca fritava o que havia dentro deles, e as drogas que atualmente são injetadas não fazem isso adormecer. Isso sai, salta dentro de alguma outra pessoa e nos deixa para matar as carcaças, que, de qualquer jeito, não estão mais vivas.

A perversidade humana

Quando você ler Jane Austen, desconfie das personagens muito boazinhas. No caso de Stephen King, personagens com qualidades e valores do american away of life, possivelmente não são boas pessoas. Em À Espera de um Milagre, esse cara é Percy. Ele é influente, tem ligações, poderia estar em qualquer outro lugar, mas parece ter um desejo mórbido de não apenas ver uma execução, mas de estar a frente de uma. Isso é aterrorizante e talvez o que tenha de melhor em suas obras que não falam de terror especificamente. Não é o diabo, o fantasma ou o monstro. É o cara, acima de qualquer suspeita, aquele que pode bater a sua porta, pedindo uma xícara de açúcar, que comete perversidades e não está do lado de dentro da cela.

Stephen King é um excelente contador de estórias. Mesmo que, às vezes, a leitura fluida nos leve a beira da pieguice. Chora com livros? Prepare-se!

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