A primeira vez que li as peripécias de Bridget eu estava longe de chegar aos meus trinta anos e ainda não tinha lido Orgulho e Preconceito de Jane Austen, obra que a autora de O Diário de Bridget Jones, a escritora inglesa Helen Fielding, diz ter adaptado em seu romance.

A leitura na época foi feita em virtude da estreia do longa homônimo, dirigido por Sharon Maguirre. Lembro que me diverti muito com a história, tanto lendo o livro quanto assistindo ao filme. A única coisa que me incomodava era a personagem ser tão infantil e superficial. “Ora, ela tem trinta e poucos anos! Será que a autora quis dizer que nossos anseios adolescentes irão nos assombrar também na vida adulta?”. Descobri, mais tarde, que não era bem isso…

Ao reler o romance, já sabendo que esse era uma adaptação de Orgulho e Preconceito e já tendo lido a oba de Jane Austen, digo: Fielding, você falhou miseralvemente…

A problemática do casamento (ou do não casamento)

Jane Austen, autora inglesa do período Regencial inglês, escreveu sobre casamentos, não porque era uma romântica incorrigível, mas porque esse era um tema que a atingia pessoalmente.
As mulheres inglesas do século XIX não herdavam as propriedades de seus maridos ou pais, essas eram deixadas para o homem mais velho da família, fosse esse um irmão ou um sobrinho. Se o pai não tinha uma renda razoável para deixar para suas esposas e filhas, essas ficaram a merce desses filhos e sobrinhos, onde, muitas vezes, transformavam-se em hóspedes na casa que anteriormente tinham sido donas.

Casar era, acima de tudo, uma forma de evitar os problemas financeiros, por isso era uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, em posse de grande fortuna, devia estar procurando uma esposa. A protagonista Elizabeth Bennet vai na contramão desta história, querendo casar-se apenas por amor.

Certo, e Bridget?

Em “O diário de Bridget Jones” acompanhamos a protagonista, uma mulher dos anos 90 do ainda próximo século XX, que chega aos trinta e poucos anos sem ter casado, parecendo ser apenas essa sua grande questão:

“23h45. Argh. O primeiro dia do Ano-Novo foi um dia de horror. Não posso acreditar que
estou mais uma vez começando o ano numa cama de solteiro, na casa de meus pais. É
humilhante demais, na minha idade.(…)

Enquanto para Lizzie Bennet querer casar-se apenas por amor, sem aceitar propostas que lhe trariam um futuro confortável, parece audacioso, a impressão que temos é que para Bridget casar é o que importa, e não necessariamente com quem. Isso é reforçado cada vez mais no romance, conforme avançamos na leitura: as impressões e pressões dos outros para que ela se case e a forma como fantasia com o casamento, mesmo com o cafajeste Daniel Cleaver.

Não encontro Lizzie em Bridget. Não acredito que a personagem de Austen se aproximasse, um pouquinho que fosse, de Jones ao ser transportada para a contemporaneidade.

Então, o que fica?

O livro é divertido e a estrutura – odiar Darcy para depois amar Darcy – é a única coisa realmente parecida com a obra-base mas, mesmo Mark, não merece tanta atenção quanto seu duplo do século XIX.

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