… mesmo levando quarenta e nove anos para que acontecesse, e tudo começou com um serviço de streaming.

Era 28 de abril de 2012 e eu estava deitada, lendo. Todo meu corpo doía, mesmo sem eu saber, exatamente, onde. De vez em quando, sem querer ou motivo, fechava o livro e chorava copiosamente, limpando as lágrimas, tentando convencer-me de que eu não tinha o direito – nem motivos – de sentir o que eu sentia, de querer o que eu queria ou de sofrer o que eu sofria.

Joguei longe o volume de Madame Bovary. Estava farta das emoções e ilusões românticas que ali eram novidade, mas que com o tempo e mil outras Emmas depois, tornou-se apenas mais um romance pasteurizado.

Liguei a TV e tudo o que queria – e precisava – era de um pouco de alienação. Essa, com parcimônia, anestesia e consola. Um espírito inquieto, porém, perecia brincar e foi então que avistei-o. Não era bonito, mas também não me era indiferente, com seu jeito espertinho, raiva contida e jaqueta de couro preta – um dia farei uma tese sobre o poder das jaquetas de couro!

Pegou-me distraída e me estendeu a mão. Como resistir? Lancei-me à aventura. Não importava quem era, de onde vinha ou quantos anos tinha. Não importava nem mesmo o seu nome, pois sei título, seu pseudônimo, já tinha todo sentido pra mim: o de curandeiro de almas que – às vezes de forma gentil, outras de forma cruel – ajudava-me a recolher os caquinhos da minha.

A ficção, Doutor, não cura, de fato, mas liberta e na ficção sou sua companion para onde quiser me levar.

O que você leu acima foi uma entrada do dia 26 de março de 2015 do meu diário (sim, a pessoa ainda escreve diários) e hoje, cinco anos depois, comemora-se vinte anos do primeiro episódio da retomada da série, com produção de Russel T. Davies, intitulado “Rose” e com todos os problemas que muita gente – amantes da série ou não – já apontou: uma produção de 2005 com cara de Power Rangers dos anos 90, mas com algo que o seu comparativo americano não tem: grandes histórias e personagens humanos, mesmo quando são feitos da espuma mais vagabunda do planeta.

E se você se empolgou, ou simplesmente quer poder falar mal com mais propriedade – tem gente pra tudo nesse mundo, não é? – eu ajudo!

Dez coisas básicas sobre Doctor Who que você pode ter vergonha de perguntar

10. Por que a série chama-se Doctor Who?

Todas as vezes que alguém é apresentado ao Doutor, o diálogo é o mesmo:

– Who are you?
– Hi! I’m Doctor.
– Doctor Who?
– Just Doctor.

09. Quem é o Doutor?

Doutor, protagonista da série, é um Lorde do Tempo (Time Lord/ Time Lady), alienígena de forma humanoide do planeta Gallifrey.

08. Qual é a explicação para a mudança física do protagonista?

A explicação para as várias “encarnações” do Doutor é que, em momentos de quase morte, seja pela longevidade de seu corpo (velhice) ou por problemas físicos, os Lordes do Tempo – espécie do Doutor – regeneram-se, tomando outras formas.

07. Quantos e quais atores já interpretaram o Doutor? Por que existe esse “revezamento”?

Já viveram o protagonista de Doctor Who onze atores: William Hartnell ( 1963-66), Patrick Troughton (1966-69 reaparecendo na série em 1973, 1983 e 1985), Jon Pertwee (1970-74), Tom Baker (1974-81), Peter Davison (1982-84), Colin Baker (1984-86), Sylvester McCoy (1987-89), Paul McGann (1986), Christopher Eccleston (2005), David Tennant (2005-10), Matt Smith (2010 – 14), Peter Capaldi (2013-2017) e Jodie Whittaker (2017 – até hoje). No especial de 50 anos da série David Tennant voltou ao papel e um novo Doutor foi introduzido na cronologia: o chamado Doutor da Guerra, vivido por John Hurt.

Em uma série tão longa, é difícil imaginar que conseguissem manter os mesmos atores, seja o protagonista, sejam os coadjuvantes. Doenças, problemas com produção e até medo de ficar marcado pelo papel – como aconteceu com Christopher Eccleston – são alguns dos motivos dessas mudanças. Engraçado pensar que mesmo assim, a série mantém seu sucesso e fãs fiéis.

06. O que é um companion?

Companion são os acompanhantes do Doutor em suas viagens entre o tempo e o espaço. Da mesma forma que o protagonista muda, esses também mudam, podendo ser homens, mulheres e até um cachorro de metal, como K-9.

05. Quantas temporadas a série teve, até agora?

Contamos até 2012 vinte e seis temporadas da série antiga – que os fãs classificam como Série Clássica – e doze temporadas da nova série.

04. Quais os vilões mais recorrentes da série?

Doctor Who tem uma infinidade de vilões ao longo da série, que acabam aparecendo mais de uma vez, porém os mais recorrentes são:

  • Daleks: espécie extraterrestre oriunda do planeta Skaro, que dizimou o planeta dos Lordes do Tempo na Guerra do Tempo (Time War). A primeira aparição de um Dalek, na nova série, fez os brios do Doutor realmente se exaltarem.
  • Cyberman: cyborgs que sempre pretendem transformar vida orgânica em mecânica, assim como eles foram transformados.

03. Qual a motivação do Doutor para viajar no tempo/espaço?

Com seu planeta natal extinto e sendo o último Lorde do Tempo – pelo menos o considerado assim – o Doutor acaba por viajar pelo tempo, procurando novas aventuras ou respondendo a pedidos de socorro.

02. O que é a TARDIS?

A TARDIS – um acrônimo para Time And Relative Dimensions In Space – é a espaçonave do Doutor, em forma de uma cabine de polícia dos anos 60. A grande tecnologia dos Lordes do Tempo é de conseguir que os espaços externos pareçam muito menores que os internos. Ao entrar na TARDIS, ela tem a dimensão muito maior que a caixa azul que vemos, externamente.

01. Quem é The Master?

Não, não é o Sho Nuff, o Shogun do Harlen de O Último Dragão (só quem tem mais de 30 anos irá entender essa referência). The Master é um Lorde do Tempo renegado e considerado o arqui-inimigo do Doutor que, assim como ele, foi interpretado por vários atores (Roger Delgado, Peter Pratt, Anthony Ainley, Eric Roberts, Derek Jacobi, John Simm, Michelle Gomez e Sacha Dhawan).

Doctor Who se apresentou para mim em um momento de extrema fragilidade. Certamente por isso, logo eu que nunca tinha sido fã de nada com tanta paixão, acabei me deixando levar por este universo de ficção científica, história e viagem no tempo, que teria o mundo inteiro, mas se concentra na Inglaterra e os lugares são maiores por dentro que por fora, como nossas almas.

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