A lista contém spoilers das obras

Muitas foram as mídias que utilizaram da visão angustiante que Robert Louis Stevenson desenvolveu há exatos 120 anos nas páginas de Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde, ou em bom português O Médico e o Monstro: um homem bem educado, transpirando civilização, transforma-se, ao beber um certo elixir, em uma versão do seu lado mais sombrio, reprimido por ele e pela sociedade vitoriana e calvinista de meados de 1886. A criação é um ser dominado pelo Id freudiano, que faz aquilo que lhe parece mais conveniente, lançando-se aos prazeres marginais e, por que não dizer, corruptíveis da alma.

A história é narrada a partir do ponto de vista do advogado John Utterson que presencia um homem pisotear uma garotinha e que, ao fugir, entra na casa do bom Dr. Jekyll. Querendo saber mais sobre o caso e o que levara um homem como Jekyll acobertar tal criatura, o advogado acaba por descobrir todo o mistério: Dr. Jekyll e Hyde são a mesma pessoa.

Além das adaptações diretas do romance de Stevenson para rádio, cinema e quadrinhos, outras obras foram criadas a partir de sua característica mais latente: o duplo.

O Duplo – artifício utilizado a exaustão na Literatura, principalmente na escola Romântica – pode ser visualizado na obra de Stevenson, e em suas remanescências, como um desdobramento descolado do “eu-personagem” que adquire existência própria, com visual e temperamento muito distinto de sua forma original.

São muitos os exemplos de herdeiros diretos ou indiretos dessa aterrorizante história. Abaixo uma pequena lista de produções tão  – às vezes mais! – conhecidas quanto ela. Seriam essas histórias duplos do duplo? 🤔

Duas-Caras (Two-Face, criado por Bob Kane e Bill Finger em agosto de 1942)

Durante seu julgamento o chefe da máfia Sal Maroni joga ácido no promotor público de Gotham City Harvey Dent, desfigurando o lado esquerdo de seu rosto. Harvey desenvolve o chamado distúrbio de múltipla personalidade e torna-se um dos vilões do enorme panteão de Batman, o Duas-Caras.

A primeira aparição de Duas-Caras aconteceu na Detective Comics #66, publicada em agosto de 1942. Bob Kane diz ter se inspirado em um filme estrelado por Spencer Tracy, Ingrid Bergman e Lana Turner. O nome do filme? O Médico e o Monstro.

Tom e Jerry – O Médico e o Monstrinho (Tom and Jerry – Dr. Jekyll and Mr. Mouse em 1947)

Em uma tentativa mesquinha de envenenar seu leite para que Jerry não mais o beba, Tom acaba criando uma fórmula que deixa seu oponente forte e mau.

Não foram poucos os desenhos animados clássicos que trouxeram a figura de Jekyll e Hyde: só em Looney Tunes a temática apareceu três versões: a primeira em 1953 com o título “Sylvester: Dr Jerkyll’s Hyde“, a segunda em 1955 com o próprio cientista viciado em seu invento compartilhando tela com Pernalonga em “Bugs Bunny: Hyde And Hare” e a terceira em 1959 com o título “Tweety & Sylvester: Hyde And Go Tweet“. Tom e Jerry trariam a temática novamente em 1964 com “Tom & Jerry: Is There A Doctor In The Mouse?”.

O Incrível Hulk (criado por Stan Lee e Jack Kirby em maio de 1960)

A primeira aparição da criatura que divide a consciência com Dr. Bruce Banner acontece já em revista própria em The Incredible Hulk #1, publicada em maio de 1962.

Robert Bruce Banner, físico do Departamento de Defesa dos EUA, ao supervisionar testes da bomba gama (Bomba-G) na base do Novo México, é atingido por radiação gama transformando-se em um monstro de coloração verde esmeralda capaz de conter uma supernova.

Em entrevista, Stan Lee disse ter se inspirado na obra mais popular de Stevenson, mas também em Frankenstein de Mary Shelley.

O Professor Aloprado (The Nutty Professor, dirigido por Jerry Lewis em 1963)

Escrito e dirigido por Jerry Lewis, O Professor Aloprado é uma comédia que nos apresenta o atrapalhado e introvertido professor universitário Julius Kelp que, cansado de sofrer humilhações de colegas e alunos, decide testar em si uma fórmula que o transforma por completo: do nerd sem traquejo social ao misterioso, elegante, cantor e pianista Buddy Love.

Um remake foi feito em 1996 com Eddie Murphy no papel principal.

Clube da Luta (Fight Club dirigido por David Fincher, 1999)

Como falar desta obra sem dar spoiler? Colocá-la nesta lista já deixa pistas… Então, vou apenas me dignar a dizer que “a primeira regra do clube da luta é: você não fala sobre o clube da luta.”

A Liga Extraordinária (The League of Extraordinary Gentlemen, criada por Alan Moore em 1999)

Em entrevista, Alan Moore disse que a ideia era fazer uma espécie de “Liga da Justiça da era vitoriana”, mas A Liga Extraordinária traz um pouco mais: anti-heróis baseados em romances do século XIX. Entre eles temos um Allan Quatermain, o aventureiro de “As minas do Rei Salomão” – obra original de Henry Rider Haggard – viciado em ópio; uma divorciada Wilhelmina Murray após acontecimentos que envolviam um certo conde da Transilvânia, narrados por Bram Stoker em “Drácula”; um amoral Hawley Griffin baseado em “O Homem Invisível” de H. G. Wells; um procurado Capitão Nemo I, baseado na personagem de Vinte Mil Léguas Submarinas criada por Júlio Verne e, claro; um Dr. Henry Jekyll que passa a maior parte do tempo como seu duplo Edward Hyde.

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