A primeira vez que estive em Florianópolis foi a trabalho. Na época eu era Analista de Implantação de Grandes Contas de uma empresa líder do mercado de sistemas de pontos de venda, os famosos “PDVs”. Na verdade, “Grandes Contas” era um jeito bonito de dizer que trabalhávamos para os proprietários de franquias, os franquiados: um novo quiosque de chopp ou uma nova lanchonete abria, lá estávamos fazendo a implantação do sistema de pagamento. Fiquei dois dias por lá, trabalhei umas quatorze horas por dia e voltei sem nem ver o mar, porque o quarto em que tinham me hospedado tinha vista para outro prédio. A única coisa que voltei para São Paulo sabendo é que uma parte da cidade eles chamavam de continente e a outra de ilha. Só isso!
Desta vez, para ir ao Python Brasil 2026, decidi chegar um dia antes: fui cedo, porque assim poderia chegar, me instalar e trabalhar em uma entrega mais urgente. Depois, abri o Google Maps e procurei a Igreja Matriz da cidade (e essa é uma dica que eu dou: quer conhecer a história de uma cidade no Brasil? Sempre comece pela Igreja Matriz!).
Pedi um Uber e cheguei a Catedral Metropolitana de Florianópolis, também chamada de Catedral de Nossa Senhora do Desterro, fundada em 1802. Também achou estranho o nome Nossa Senhora do Desterro? Calma, que a minha próxima parada explica: no Sesc Museu da Cidade tem a exposição de longa duração que narra, a partir de projeções, as mudanças de toponímia da cidade desde o seu nome originário Meiembipe (raiz tupi-guarani que pode ser traduzido como “elevação de montanhas ao longo do mar”), passando pelos nomes concorrentes Santa Catarina de Alexandria (dado pelo navegador italiano Sebastião Caboto que chegou por lá em 1526) e Nossa Senhora do Desterro (dado pelo bandeirante vicentino Francisco Dias Velho em 1673). Acabou virando Cidade de Nossa Senhora do Desterro, depois, pela economia que só a fala pode nos proporcionar, Cidade do Desterro.
“Desterro” faz referência à Fuga da Sagrada Família para o Egito. Segundo a Bíblia, Maria, José e o menino Jesus tiveram que se exilar (viver no desterro) para escapar da perseguição do Rei. O nome muda de Desterro para Florianópolis em 1894 como forma de mostrar submissão ao governo federal, em meio à Revolução Federalista e à Revolta da Armada, guerras civis que desafiavam o governo central do país, homenageando o autoritário segundo presidente da República, o Marechal Floriano Peixoto. Florianópolis é um nome formado por justaposição de dois termos: Floriano e pólis (cidade em grego)
Ainda no Sesc Museu da Cidade, visitei a exposição temporária “Elos de Olhal – Ponte Hercílio Luz 100 anos”. Hercílio Luz, que dá nome a ponte, foi o governador que mudou o nome da cidade para Florianópolis e que deu início à construção da ponte pênsil destinada a ligar a ilha ao continente.
A ponte Hercílio Luz também é um grande tema no Museu Histórico de Santa Catarina, também chamado de Palácio Cruz e Sousa em homenagem ao poeta simbolista após o tombamento do imóvel em 1979.
Por último e não menos importante dei uma passadinha na Casa de Literatura Catarinense onde estava tendo um evento referente ao sarau “Festival Mulheril – Choro Mulheril” que contemplou obras de Chiquinha Gonzaga.
Termino essa viagem com os últimos versos do soneto Livre de Cruz e Souza, o poeta negro festejado na cidade que em uma já longínqua Nossa Senhora do Desterro, por preconceito racial, foi proibido de assumir o cargo de promotor público em Laguna.
“Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.”
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